12.7.12

{Lunch at the Corner Room} Um almoço na sala do canto

The Corner Room, Town Hall Hotel, London

Londres. Sábado. Manhã de sol. O East End londrino fervilha de vida. O tube leva-nos até Bethnal Green, a estação de metro mais perto do bonito Town Hall Hotel, um hotel de charme recentemente renovado. É para lá que nos dirigimos em busca do nosso almoço. The Corner Room é o restaurante-irmão do estrelado Viajante, ambos comandados pelo chef Nuno Mendes, e é lá que uma mesa nos espera com a promessa de "uma viagem entre aquilo a que sabem os sonhos e memórias de dias passados". Palavra de chef.

Viajemos então. O caminho faz-se por Cambridge Heath Road até Patriot Square. Na esquina fica a porta do Viajante, imponente e serena, guardada por uma Senhora e dois querubins. Passamos e seguimos. Com alguma tristeza, o nosso cartão de embarque não nos dá entrada por aqui. É pela recepção do hotel que a cúpula nos transporta para outro lugar.

Viajante, Town Hall Hotel, London



Eis-nos chegados à sala do canto. A fantástica parede de tijolos com dúzias de candeeiros de inúmeras formas e feitios prende a atenção assim que se entra. The Corner Room é afinal o espaço onde são servidos os pequenos-almoços do hotel e que, de há uns meses a esta parte, passou também a servir almoço e jantar a hóspedes e outros transeuntes. Uma carta sucinta oferece, a preços módicos, a oportunidade de provar a comida de Nuno Mendes e embarcar na viagem prometida. Por nós, estamos prontos.

Somos duas a seguir na direcção de nascente. Ou assim a entrada escolhida de caranguejo e algas com batatinhas parece indicar. Perfeita na sua complexidade de sabores, uns atrás dos outros, em harmonia. Ao meu lado, um viajante menos afoito faz-se à vida num prato de beterraba com queijo de cabra e mostarda preta. Uma combinação mais tradicional, irrepreensível na confecção e apresentação. Aliás, como todos os pratos que chegam à nossa mesa. A loiça branca e lisa como base para um convite sem destino marcado. Somos, por esta altura, três convivas satisfeitos. Distrai-me apenas o misterioso prato que cada um de nós tem à sua esquerda com uma faca de manteiga e o enorme candeeiro no centro da sala.

The Corner Room, Town Hall Hotel, London The Corner Room, Town Hall Hotel, London

Das entradas passamos para os pratos principais. Quando pedimos, é a desilusão quando nos informam que a alcatra de borrego com alho selvagem e cereais acabou. Os meus parceiros de aventura decidem-se por um bife com raiz de aipo e estragão. São avisados que o chef aconselha mal passado para garantir a integridade do sabor e textura da carne. Escolho salmão confitado. Quando o prato chega não é nada do que eu esperava. Olho desconfiada para uma sopa de inspiração asiática com cogumelos Enoki e aceito, a custo, uma colher. A hesitação dura apenas até à primeira colherada e à explosão de sabor. Tenho a certeza que se fechar os olhos chego ao outro lado do mundo.

Ficamos em silêncio enquanto comemos. Nenhum de nós tem nada a dizer, com a boca e o cérebro demasiado ocupados. Assim que cada um termina abrem-se sorrisos de quem comeu e gostou. Trocamos apontamentos da viagem e brindamos a (mais) Sábados destes.

The Corner Room, Town Hall Hotel, London
The Corner Room, Town Hall Hotel, London

É chegada a hora das sobremesas. Queria muito provar a famosa leche frita com brioche e sultanas mas não consta da carta. São oferecidas apenas 3 opções. Não consigo escolher. A minha amiga decide-se por ruibarbo com gelado de buttermilk e chocolate branco. Uma sobremesa bonita e cheia de sabores onde um molho de hortelã faz a festa. Acabo por pedir uma panna cotta gelada com maçã caramelizada. Gosto mas não me surpreende. Divertida, quase irreverente é a apresentação. O prato vem arranjado no rebordo do lado esquerdo deixando todo um vazio à direita. Uma espécie de convite ao preenchimento dos espaços em branco. Afinal quem come também escreve a História, não?

The Corner Room, Town Hall Hotel, London

O nosso almoço no Corner Room termina com café. Um expresso amargo, quase para mastigar, que não faz os encantos dos meus parceiros de aventura. Eu não desgosto do sabor mas não percebo a ideia das enormes chávenas em que é servido. Não há creme que se aguente.

Quando chega a nossa conta, vejo entrar na sala pratos de um fantástico pão acompanhado de manteiga. Devo ter feito uma enorme careta pois a menina que nos serviu apressa-se a explicar-me que o pão tinha acabado de chegar. São 3 da tarde. Franzo ainda mais o sobrolho. Pelo menos fico a saber para que serve o prato de pão e a faca de manteiga que ficaram até meio da refeição na nossa mesa. Talvez nos pudessem ter explicado antes ou encontrar uma alternativa. Ou simplesmente retirar o prato da mesa. Parece que teremos de esperar pela próxima visita para provar o pão. É (mais) uma desculpa para querer voltar.

The Corner Room, Town Hall Hotel, London

The Corner Room
Town Hall Hotel
Patriot Square,
Bethnal Green
E2 9NF Londres

8 comentários:

  1. Suzana, os teus diários de viagem são sempre contados de tal forma, que me fazem também esfregar os olhos e juntar-me a ti. No The Corner Room, rodeada de candeeiros e comida boa. :)

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  2. Querida Suzana,
    Eu não fecho os olhos para chegar ao outro lado do mundo, mas abro-os para te ler e me transportar nas tuas palavras. E vou para onde tu quiseres, agora, de olhos fechados.
    És muito poética.
    Beijinhos
    Sofia

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  3. Parabéns pela forma poética à relatar sua aventura gastronômica.
    Seu blog é muito inspirador.
    Att,
    Anna Paula.

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  4. A tua escrita é sempre inspiradora.
    Eu fecho os olhos e estou lá, na tua viagem, no teu almoço com os candeeiros e comida fabulosa.
    É tão fácil viajar assim :)

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  5. que texto mais inspirador!adorei o relato de tda a experiencia!

    http://deliciasdaisa.blogspot.com.br/

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  6. Já anotei a referência, para quando voltar a Londres...
    Beijo
    Babette

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  7. Suzana, amei teu blog. Sou brasileira e vou acompanhar sempre agora! :)
    Também tenho um, visite se puder. Se gostar, vou ficar satisfeita!

    Beijos e continue na cozinha!

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  8. Amei, amei este texto. A tua narrativa é pura poesia.

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