23.5.12

Um almoço na Casa da Calçada

Largo do Paço, Casa da Calçada, Amarante

Domingo de uma Primavera com problemas de identidade. Não sabe se há-de ser Verão ou Inverno. Faz calor no dia em que nos fazemos ao caminho para almoçar na Casa da Calçada, em Amarante. O que nos espera é um regresso ao passado. Entramos numa casa de família onde a História deixou testemunhos vários, que vão conjugando nas paredes o verbo viver. Há uma promessa de romantismo em cada detalhe das salas e dos recantos que fazem do espaço uma cápsula do tempo. Aceitamos o repto e seguimos viagem.

É neste ambiente único que fica o restaurante Largo do Paço, detentor de uma estrela Michelin, e se encontra a cozinha do Chef Vítor Matos.

Casa da Calçada, Amarante

Com o Tâmega a correr serenamente ali ao lado, a Casa da Calçada convida à preguiça e à contemplação de quem facilmente se perde em pensamentos e outros sonhos num ambiente que os propicia. Entre a vontade de ler um livro recostada num canapé, de ficar à sombra das bonitas cameleiras ou de dar um mergulho na piscina, há sempre uma mesa à espera no Largo do Paço.

O trabalho do Chef Vítor Matos é marcado pelo rigor de quem faz do pormenor a sua assinatura. Cada prato constrói uma narrativa que é tanto uma história contada por sabores, texturas e cores como um apelo aos sentidos, em que os olhos são de facto os primeiros a comer.

Rio Tâmega, Amarante
chef Vítor Matos, Largo do Paço, Casa da Calçada

Eis o menu de 12 pratos (e outros mimos e mignardises) que constituíram o nosso memorável almoço "Vítor Matos Sensory Tasting" e que podem ser encontrados na nova carta Primavera/Verão do Largo do Paço.



Chef Vítor Matos, Largo do Paço, Casa da Calçada, Amarante

[Da esquerda para a direita e de cima para baixo]
Começámos com um vinho Abafado Molecular de Luís Pato a acompanhar um Foie gras des landes: trufa, beterraba e creme brûlée, consommé de trufa Estivium, a que se seguiu Lavagante azul da costa: glaceado com gel de ostras, redução de Pedro Ximenez e esferificação de sapateira e um Carabineiro de Sagres: com o seu molho, puré de salsifis e toucinho salgado de porco preto. Este último um prato de que não me esqueço facilmente. Em seguida, um Ovo a 62º: presunto bísaro, Boletus Edilius confitados em azeite e espargos e um dos favoritos da mesa, Ervilhas e vieiras: cappuccino de ervilhas, crocante de chouriço de Barrancos e vieiras salteadas. Ainda no capítulo do mar, o Cantaril dos Açores: cozinhado em vapor aromático, esparguete de tinta de chocos, trouxa de coguemlos, Chutney de manga, molho de crustáceos e caril de Madras.

Cada prato pleno de sabor, numa complexidade de ingredientes, técnicas e combinações (quase) sempre em equilíbrio perfeito. Como se existissem para aquele encontro, naquele momento. Como se fosse fácil, conjugar tantos e tão diferentes sabores. Cada prato, especial. Todos muito conseguidos. Excelentes, para mim, o carabineiro, o ovo e o cappuccino de ervilhas e vieiras.

desenhosVM

Se cada prato colocado à minha frente parece desenhado, descubro, entusiasmada, que de facto o é. O Chef Vítor Matos utiliza papel e lápis para pensar a sua cozinha e o resultado são folhas e folhas em que o pensamento se transforma em traços que dão vida a ingredientes, dispostos em harmoniosas conjugações. Com grande generosidade, o Chef aceitou partilhar connosco esses desenhos. Um momento do almoço que, julgo, todos apreciámos e que complementou a experiência de modo muito particular.

E a refeição continua.

Chef Vítor Matos, Largo do Paço, Casa da Calçada, Amarante

[Da esquerda para a direita e de cima para baixo]
Para preparar o palato para o que aí vem, um muito bonito Gin mediterrânico; azeitona, manjericão, tomate e tomilho. A que se segue a Pintada: peito recheado com pistácios, morilles, molho de foie gras e cremoso de batata trufada e um Porco Bísaro: fumado e confitado com molho de vinho tinto, gnocchi de castanhas, favas e cebolo. Nas sobremesas, chega o Charuto da Calçada nº 5. Uma bem disposta combinação de chocolate e avelãs com "cinza" de picocas. Seguido d'O Melhor Azeite do Mundo: iogurte caseiro e maracujá e Cerejas e espumante Rosé Lago Cerqueira: salteadas com sabayon de espumante, macaron, sorvete e bombom de framboesas.

Muito, muito boa a pintada. Bem pensado e a arrancar sorrisos, o charuto. Os dois, fantásticos, na minha opinião. Assim como o serviço de sala e a simpatia de todos os que contribuíram para tornar esta uma refeição muito especial. Com café e mignardises (corneto, Foguete, S. Gonçalo) a antever uma caminhada pela Casa da Calçada e por Amarante.

Mignardises, Largo do Paço, Casa da Calçada, Amarante
Largo do Paço, Casa da Calçada, Amarante

No Conversas à mesa, a Fátima Moura traça a sua muito sábia apreciação desta experiência e no instagr.am, o João Miguel Simões regista o seu olhar sobre esta aventura. Um agradecimento especial ao Mário Cerdeira e à Fátima Moura, ao Chef Vítor Matos e ao João Costa Oliveira por este dia fantástico! E um obrigada à Maria de Lourdes Modesto pela sempre inspiradora companhia e ao grupo de pessoas felizes que se juntou.

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Casa da Calçada - Relais & Châteaux
Largo do Paço, 6
4600-017 Amarante

7 comentários:

  1. que espetaculo de menu! parece um sonho em forma de pratos lindos e tao detalhados!!!

    http://deliciasdaisa.blogspot.com.br/

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  2. Fernando Caldeira Marques25 de maio de 2012 às 01:43

    Um autêntico desfilar de maravilhas gastronómicas, muito bem descritas!

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  3. olá,
    parabéns pelo texto maravilhoso e pelas fotos lindas!!
    http://entrecostosnaosediscutem.blogspot.pt/

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  4. O equilibrio perfeito encontra-se tb aqui, na forma como nos levas aos sítios que viveste e aos sabores que tocaste.
    Quem diria que havia desenhos por trás de todo este processo...
    Deve ter sido um almoço verdadeiramente inspirado. :)
    Bjs

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