31.10.14

Salada de alcachofras de Jerusalém, nozes e queijo de cabra

Salada de Outono

Este é o Outono do nosso contentamento. Faz sol e o ar é fresco. No horizonte vislumbra-se um desejo de novos começos com a mais bonita luz a emoldurar. Enquanto assim for, ponho a rabugice em espera e alegro-me com a mudança de cor à minha volta e a chegada dos frutos e vegetais da estação.

Descubro no fundo de uma caixa uma mão cheia delas. São as primeiras do ano a chegar ao mercado e a anunciar o Outono. Enrugadas e feias, enchem-me de felicidade na antecipação da descoberta de novas combinações. Nem são de Jerusalém, nem alcachofras. Dizem-se também tupinambos e a sua aparência é menos que prometedora. Quem vê caras não vê corações. Nem sabor. Hão-de ser o nosso almoço.

Salada de Outono

Celebra-se assim o Outono num prato de alcachofras de Jerusalém, nozes e queijo de cabra assentes em rúcola e cebola roxa. No entretanto as folhas mudam de cor e caem, cobrindo o chão a toda a volta. É tempo de passar à acção, com o meio-dia a aproximar-se a passos largos. Ainda são as saladas que me preenchem a vontade. Podem ser mais robustas que as que lembram o Verão mas ainda precisam de frescura e alguma cor. São comidas a dois numa cozinha silenciosa e cheia de sol.

Adoro o Outono!

Salada de Outono Salada de Outono

28.10.14

Azeite e mel para um bolo podre

Bolo Podre

De azeite e mel se fazem os doces da minha memória. Lá onde os dias passam mais devagar, onde o céu começa e a terra termina, fica a paisagem a perder de vista a que se chamou Alentejo. Na linha do horizonte, ao longe, as silhuetas das oliveiras cruzam-se com os sobreiros e as azinheiras. Há pão na mesa e cheira a ervas aromáticas. Com canela e limão, estão reunidos os sabores de uma tradição, aqui traduzida em bolo e transmitida de geração em geração à fatia.

Bolo Podre. Pode um nome ser mais enganador? De onde vem ninguém sabe, sugestões há muitas, certezas quase nenhumas. Talvez seja a longevidade. Esquecido numa lata, dura uma eternidade. Ou pode ser que seja a cor, escura e profunda, misteriosa e aterradora ao mesmo tempo. Se nome inspira desconfiança, só o aroma ganha seguidores. Azeite, mel, canela e limão. Assim se escreve a estória de um bolo alentejano.

azeitonas azeite

A escolha do mel e do azeite determina o sabor deste bolo. Gosto de um mel com personalidade cujos aromas remetam para o campo de onde é proveniente e de um azeite doce e frutado, característico do Alentejo. Para o primeiro, deito a mão a um mel de rosmaninho que guardo para ocasiões especiais. Para o segundo, abro uma garrafa de azeite virgem extra Adega de Borba, feito a partir de azeitonas da variedade Galega e repleto de referências à riqueza gastronómica da região. Este bolo é uma espécie de cápsula onde cabe todo o Alentejo. É simples, faz uso inteligente dos ingredientes da terra e capta o sentimento profundo e sereno da doçaria caseira.

Para mim sabe a casa e a tardes de Outono. Com chá ou café, é promessa de uma viagem por entre oliveiras e sobreiros, até ao coração do Alentejo.

São servidos?

Bolo podre

21.10.14

Até São Bento pela linha do Douro: as crónicas de um vinho especial

Quinta Monte do Xisto 2012, Porto

Chegar ao Porto de comboio é como entrar num postal ilustrado. Pudesse a meteorologia ter sido mais clemente e a beleza da paisagem teria sido quase insuportável. Da chuva guardo poucas memórias. São os azulejos e a luz a entrar pelas vidraças da estação de São Bento que me acompanham como um raio de sol. É ali o lugar marcado para conhecer o Quinta do Monte Xisto 2012, um vinho que junta a família de João Nicolau de Almeida, num elogio à enologia e ao amor pelos vinhos e pela terra.

Apresentar um vinho numa das mais bonitas estações de comboios do mundo podia ser apenas um capricho. Não fosse ali o começo da linha do Douro, cuja história se confunde com a da região vinícola demarcada e é parte da cultura do vinho. Tanto simbólica como física, a ligação entre São Bento e o Pocinho marca a paisagem num paralelo quase perfeito entre a linha e o próprio rio. Os vinhos do Douro são herdeiros dessa história que deve ser lembrada e celebrada a cada novo vinho.

Quinta Monte do Xisto 2012, Porto Quinta Monte do Xisto 2012, Porto

Pelo Douro a fora definem-se as características de um terroir único. A Quinta do Monte Xisto é um projecto onde olhares diferentes sobre a enologia reúnem duas gerações, João Nicolau de Almeida e os seus filhos João e Mateus. Este é um vinho que resulta de um modo de produção biológico, com princípios da agricultura biodinâmica. É o respeito pela natureza e o conhecimento da terra que volta a transparecer. Tomilho, rosmaninho, zimbro. São as plantas silvestres, as particularidades do solo e a pedra a marcar o lugar onde as vinhas crescem: Touriga Nacional, Touriga Francesa e Sousão para um vinho muito especial, fruto de consensos familiares e em que cada membro tem uma palavra a dizer.

No copo, o registo de um caminho trilhado nas encostas do Douro Superior e traduzido em aromas florais e silvestres que remetem novamente para o terreno. Revejo cada imagem da vinha, cada aroma da flora da quinta. E a cada nova prova, este é um vinho que se reinventa e que traz sempre algo de novo.

Quinta Monte do Xisto 2012, Porto Quinta Monte do Xisto 2012, Porto

Como se tivesse lido os meus pensamentos, oiço as palavras de João Nicolau de Almeida: "Mais do que uma experiência cultural, a prova de um vinho é essencialmente pessoal e nasce muito da nossa predisposição para viajarmos ao sabor dele”. Porque cada vinho é mais do que o resultado científico das escolhas feitas, são as emoções em torno da partilha que fazem todas a diferença. Vou à conversa, pelos corredores da estação de São Bento, com Mafalda Nicolau de Almeida, falando sobre os desafios colocados à linha do Douro, as maravilhas do rio e como a região têm mudado a sua paisagem. A sua escolha da estação de São Bento para a apresentação da colheita de 2012 não podia ter mais significado.

Entre muitas conversas, a hora do almoço chega. Com mais chuva e alguns trovões, é tempo de ir até ao DOP e receber o Quinta do Monte Xisto 2012 à mesa. É a continuação de uma viagem inesquecível, agora deixando os comboios para trás.

16.10.14

Challah ou o pão entrançado da união

Challah

A cozinha tem andado parada, preterida por dias longos de trabalho e pouca disponibilidade mental. O forno vai sendo ligado com receitas que se fazem quase sozinhas ou para o eventual pão de fim-de-semana. Hoje celebra-se o World Bread Day. Abrem-se as portas do blog ao padeiro cá de casa e a um pão muito bonito, cheio de significados.

As receitas de pão cruzam-se frequentemente com a história e os rituais religiosos. Challah é um pão de origem judaica, originalmente preparado para ser comido no Sabbath – sexta-feira, dia de descanso semanal sagrado nesta religião. Contudo, o sabor proporcionado por esta massa enriquecida com açúcar, ovos e gordura, e as diversas formas entrançadas com que pode ser produzido tornaram-no um pão apreciado em várias culturas, à semelhança do bagel ou do brioche.

outono ovos

A forma mais comum é, talvez, a trança de três cordas cujo simbolismo remete para os valores de Verdade, Paz e Justiça. No entanto, o challah pode ser produzido de múltiplas maneiras e feitios carregando diversos simbolismos. Nesta receita optei por uma coroa entrançada que pode ser feita com a ajuda de uma forma redonda e cujo significado deixo aberto ao que cada um de vós considere mais importante.

Feliz World Bread Day!

Challah Challah

1.10.14

Borrego com tâmaras e especiarias marroquinas

tomate

Há despedidas que são apenas um até logo. Encerram promessas de rápido retorno e a expectativa do eterno reencontro. Dessas despedidas faz-se a história das estações do ano, dos legumes e das frutas que chegam e partem, dos hábitos alimentares ditados pela altura do ano. É simplesmente a forma que o mundo tem de se reinventar a cada ciclo. Das despedidas que levam um bocadinho de nós e são para sempre, dessas não falo hoje. Para elas não tenho receita, mézinha ou panaceia. Ao contrário das outras.

Para um adeus sorridente ao tomate, um breve até para o ano e a vontade de comemorar. Puxo de um tacho vermelho, o tal que traz promessas de boa sorte e cheira a festa, e começo a juntar ingredientes. Mentalmente escrevo notas que ninguém lê e vou reunindo lembranças para partilhar com os seres que fazem a minha vida mais bonita. É assim a história desta receita, que sirvo com carinho a amigos muito queridos.

sol, campo e história borrego à marroquina

Os últimos tomates frescos, amadurecidos ao sol, de carne generosa e sabor completo fazem o melhor molho ou base de um estufado com aromas marroquinos. As especiarias enchem a cozinha assim que chegam ao fundo quente do meu tacho preferido. Com a carne predilecta de muitos e os sabores fortes do Magrebe em jeito de inspiração, esta é uma espécie de tagine que faz as delícias de todos. A forma perfeita de celebrar a partida da estação, num brinde de chá de menta fresca e limão.

Adeus Verão! (e volta sempre)

tomate e chá de menta